Uma
visão crítica das brigadas
de incêndio. Falta de Manutenção
em segurança é grave problema.
Por Paulo Palmieri Magri, engenheiro civil
e de segurança do trabalho, membro
titular do IBAPE/SP (Instituto Brasileiro
de Avaliações e Perícias
de Engenharia de São Paulo)
Iniciamos o século 21 com uma herança
de anos passados onde as legislações
e instruções normativas de
brigadas de incêndio não eram
cumpridas. Nos anos 70, ocorreram duas grandes
catástrofes, o Edifício Andrauss
(24/02/1972) com 16 mortos e o Edifício
Joelma (01/02/1974) com 189 mortos.
A
perplexidade da população
e autoridades foi tanta que imediatamente
foi modificado o “Código de
Obras - Artur Saboya” e criado o “Grupo
Especial de Peritagem” que, em 1982,
com a criação da Secretaria
da Habitação de São
Paulo, foi transformado no Contru/SP (Departamento
de Controle de Uso do Imóvel), inicialmente
apenas para fiscalizar edifícios
com alto risco de incêndio.
De lá para cá, somente evoluímos
na parte tecnológica, com melhores
equipamentos, materiais de combate a incêndios,
estudos e profissionais do ramo, como os
engenheiros de segurança e médicos
do trabalho e os bombeiros, ligados à
Polícia Militar. Porém, no
que tange aos treinamentos e ensaios de
evacuação dos edifícios,
ou seja, os treinamentos das brigadas de
incêndio, estamos ainda muito aquém
do desejado.
A grande maioria dos edifícios do
Brasil tem brigadas de incêndio fictícias,
apenas para que seja atendida a legislação
e assim se livrarem das multas – as
seguradoras, para não perder seus
preciosos clientes, muitas vezes fazem vista
grossa. O Contru/SP não tem atualmente
pessoal suficiente para atender nem mesmo
a cidade de São Paulo, contando com
um número mínimo de engenheiros.
Os síndicos dos edifícios
são responsáveis criminais
por tal aventura e mesmo assim nada fazem;
o Corpo de Bombeiros age prioritariamente
na extinção do incêndio,
não tendo pessoal suficiente para
atuar na fiscalização e prevenção.
Sem falar nos edifícios altos e antigos
do centro velho de São Paulo, com
suas saídas de emergência obstruídas,
subdimensionadas e muitas vezes com outras
utilizações que não
a de “rota de fuga”.
Não podemos deixar de falar dos
deficiente físicos, tão esquecidos
no Brasil – como fariam para fugir
em dia de incêndio de um edifício
comercial antigo do centro de São
Paulo – onde não há
rampas de acesso para eles?
O empobrecimento da classe produtiva gerou
um crescimento do profissional autônomo
e os escritórios, cada vez menores,
abrigam um número maior de população
fixa nos edifícios, contrariando
muitas vezes o que preconiza o código
de obras atual, que é de 5 a 7 pessoas/m2
para edifícios comerciais e de serviços,
o que de certa forma dificulta a evacuação
do edifício no caso de um incêndio.
Atualmente o quadro é crítico
com a falta de Manutenção
em segurança, com a existência
de brigadas de incêndio fictícias,
materiais combustíveis em excesso
nas decorações dos edifícios
etc. Até parece que estamos à
espera de novas catástrofes como
as dos anos 70 para providências serem
tomadas.
Necessitamos, então, de maior conscientização
da sociedade como um todo, onde estaremos
engajados em participar voluntariamente
ou não das brigadas de incêndio,
participando de cursos de primeiros socorros
e realizando treinamentos específicos
regularmente.
Não acredito que alguma alteração
de legislação mudará
o atual estado das coisas. Mas acredito
que somente com educação,
vindo das escolas, como é feito nos
EUA, Japão, Canadá e alguns
países da Europa, onde os alunos
do ensino médio têm noções
de primeiros socorros, salvatagem, extintores,
hidrantes etc., teremos alguma chance. Devemos
incluir imediatamente nos currículos
escolares uma disciplina que trate da segurança
do trabalhador e do usuário. Nas
universidades, devemos criar a disciplina
de “engenharia de segurança
contra incêndios” para todos
os cursos de engenharia e arquitetura.
Portanto, enquanto não são
criadas estas disciplinas nas escolas e
universidades, o Contru/SP, por exemplo,
associado ao Corpo de Bombeiros, deveria
fiscalizar com maior rigor os treinamentos
de brigada de incêndio, principalmente
nos dias de ensaios de evacuação,
para que estes órgãos possam
auxiliar os “ensaios” com sua
experiência, criando assim aos poucos
uma conscientização para o
risco de incêndio. Louve-se a iniciativa
do Metro de São Paulo, onde recentemente
foi realizado um treinamento de salvatagem
com a ajuda do Corpo de Bombeiros, Polícia
Civil e Militar, Prefeitura e engenheiros
de segurança, médicos e enfermeiros
do trabalho, sendo que tal trabalho foi
considerado excelente por profissionais
do ramo.
O objetivo dos planos de abandono é
assegurar uma utilização eficiente
e segura das rotas de fuga disponíveis.
Os treinamentos adequadamente planejados
garantem a evacuação ordenada,
sob controle e evitam o pânico. A
rapidez na evacuação é
desejável, mas não é
prioritário, pois deve prevalecer
a Manutenção da ordem e disciplina.
Para tanto, são necessários
treinamentos e ensaios específicos
regularmente.
Alerto autoridades e sociedade como um
todo de que, somente a partir da conscientização
de que tais treinamentos e ensaios de evacuação
são prioritários, é
que poderemos dizer que novas e grandes
catástrofes, com um número
elevado de mortos, serão muito remotas
no Brasil.
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